terça-feira, 6 de março de 2012

UM POUCO DE HISTÓRIA E DE ABSURDO EM PARANAPIACABA

Patrimônio histórico, turismo e registro fotográfico
Agora você pode escolher entre Paranapiacaba e Buenos Aires
José de Souza Martins

Locobreques I<br />Foto José de Souza Martins

Locobreques I
Foto José de Souza Martins


         O capítulo II da Lei 9.018, de 2007, do município de Santo André, estipula que para fotografar a vila de Paranapiacaba, é preciso solicitar autorização prévia à Prefeitura, em Santo André, e obtê-la por escrito, mediante assinatura e aceitação dos termos. Se se tratar de fotografia sem fins comerciais, nada será cobrado. Mas, você terá a chateação de ir a Santo André para obter o salvo-conduto, como no tempo da Segunda Guerra mundial. Naquele tempo, estrangeiros da imigração, no Brasil há décadas, que eram milhões, tinham que ir à polícia e munir-se desse documento para qualquer viagem fora de seu município de residência. No caso de agora, se for fotografia publicitária ou para obtenção de vantagens econômicas, o interessado deverá pagar R$ 600,00 por dia de trabalho fotográfico.
         É falso que a cobrança possa ser feita “por se tratar de um patrimônio histórico, tombado em nível nacional, estadual e municipal”. Há milhares de bens tombados no Brasil, que não estão sujeitos a essa esdrúxula interpretação. Uma advogada, minha conhecida, com quem comentei o assunto, esclareceu-me que “a Lei sobre Direitos Autorais atualmente em vigor (Lei 9.610 de 19/02/1998), no seu Art. 48, que se encontra no Capítulo IV (Das limitações aos Direitos Autorais), ao tratar das hipóteses que não constituem ofensa aos direitos autorais, diz: "Art.48 – As obras situadas permanentemente em logradouros públicos podem ser representadas livremente, por meio de pinturas, desenhos, fotografias e procedimentos audiovisuais." Portanto, a lei de Santo André, sendo lei menor em face da lei federal, e as restrições que estabelece quanto à liberdade de representação visual de Paranapiacaba, é manifestamente ilegal. Pergunto-me, aliás, se não seria o caso de acionar o Ministério Público para que se pronuncie sobre a questão.
Grupo humano I

Foto José de Souza Martins

         Além disso, a restrição à fotografia, seja de graça ou paga, torna Paranapiacaba completamente desinteressante para quem gosta de fotografar. Para quem não mora nas proximidades da prefeitura municipal, já é um tormento ter que fazer uma viagem apenas para obter a permissão estipulada em lei. Eu que já fotografei Paranapiacaba muitas vezes e fiz dessas fotos de muitos anos, em preto e branco, um dos capítulos do meu livro de fotografias publicado, em bela edição, na coleção “Artistas da USP”, da Editora da Universidade de São Paulo (1), estou desistindo de voltar lá para um novo empreendimento cultural desse tipo. Pois é, de fato, empreendido sem compensação financeira que cubra as não pequenas despesas com filmes e trabalhos de laboratório. Não se ganha dinheiro com livros desse tipo; perde-se. Não vou discutir com um burocrata da Prefeitura de Santo André o que é uma obra de interesse meramente cultural e artístico, se a municipalidade – Prefeitura e Câmara – chegou a ponto de aprovar uma lei desse tipo.
         Para ter um termo de comparação, consultei o preço das passagens aéreas de ida e volta a Buenos Aires (ida no dia 1º de agosto e volta no dia 6), e descobri que uma das companhias, a Pluna, está vendendo passagens a R$ 430,00. A administração de Buenos Aires nada cobra para que se fotografe a bela cidade, cheia de cenários, edifícios e museus de grande beleza, lugares ótimos para fotografar, gente acolhedora. De modo que, agora, os interessados em fotografia podem decidir entre Paranapiacaba e Buenos Aires, num mero cálculo da relação custo-benefício.
         Na administração municipal do PT, havia sido encontrada uma saída inteligente para revitalização e preservação da decadente vila ferroviária, de meados do século 19. Lugar de início da modernidade no Brasil (v. meu livro A Aparição do Demônio na Fábrica, Editora 34, São Paulo, 2008), tem traçado e arquitetura baseados no Panóptico, de Jeremy Bentham (1748-1832). Cidadão que, aliás, conheci pessoalmente, em 1973, mumificado e sentado dentro de uma gaiola de vidro na entrada do restaurante da Universidade de Londres. Ele criou um modelo de prisão em que, o preso, em vez de ser ocultado, como ocorria nas masmorras medievais, é exposto, no seu peculiar confinamento, e se sente vigiado todo o tempo, mesmo que não o seja. Trata-se de um modelo de presídio que aumenta enormemente a produtividade da vigilância: um único guarda vigia centenas de presos a partir de sua cabina estrategicamente situada em ponto central do recinto. Função que era cumprida, em Paranapiacaba, pelo indevidamente chamado “Castelinho”, antiga casa do engenheiro-chefe. Visitei uma prisão desse tipo, desativada, dos tempos da ditadura de Fulgêncio Batista, em Cuba, e pude ter uma ideia do impressionante poder de vigilância que decorre dessa inovação tecnológica.
 
Portal do tempo

Foto José de Souza Martins

         Entre nós, a modernidade nasce com a difusão de uma cultura repressiva em que a consciência da vítima é sua própria polícia. É o princípio lógico da linha de produção e da disciplina do moderno trabalho industrial. A modernidade nasce com a modernização do medo, o ser humano desconfiado de si mesmo. Volta e meia vou a Paranapiacaba, com alunos de Ciências Sociais, da Faculdade de Filosofia, da USP, para uma aula, justamente sobre a obra de Michel Foucault, o autor que estudou as implicações da inovação de Bentham, em particular, Vigiar e Punir, um estudo clássico sobre o panóptico. A estrutura física da vila operária é a do panóptico, a prisão do século 18.
         A fórmula que a administração municipal petista encontrou para revitalização da vila foi a de restaurar o conjunto urbano que a Prefeitura havia comprado da Rede Ferroviária Federal. Estimulou os moradores a transformarem suas casas, recuperadas, em restaurantes domésticos, adaptando as respectivas salas para o recebimento de clientes nos dias de maior afluxo de turistas: feriados, sábados e domingos. Os moradores foram treinados a se especializarem em determinada culinária e a servir, como se faz num restaurante. O esquema deu muito certo, pois a vila era muito mal servida de locais para refeições. Algumas casas se adaptaram para receber hóspedes em cômodo disponível, no estilo das “guest houses” inglesas. Invasores de casas foram afastados e a favelização da vila ferroviária foi revertida. Um belo programa que, associado ao festival de inverno e a outros programas musicais e culturais, aumentaram o fluxo turístico e, keynesianamente, criaram uma alternativa de renda e emprego para a população local.
         O expresso turístico ferroviário da CPTM, de turismo de um dia, foi estabelecido, no governo José Serra, entre a Estação da Luz e a Estação de Paranapiacaba (além das linhas para Jundiaí e Moji das Cruzes), com parada na estação Celso Daniel, em Santo André. O trem agregou um importante e apropriado complemento ao esquema de revitalização urbana e de refuncionalização da antiga vila vitoriana de trabalhadores da ferrovia. Um conjunto articulado de medidas convergentes não só em benefício da população local, mas também em benefício da população da região metropolitana, carente de alternativas de turismo de família para os não possuidores de automóvel, turismo barato e educativo. Bela iniciativa do governo do Estado.
Emaranhado

Foto José de Souza Martins

         Infelizmente, foi no próprio governo do PT, em 2007, que alguém teve a má ideia de estabelecer restrições e dificuldades para o acesso de turistas à via antiga e peculiar, com a medida imprópria e descabida de instituir dificuldades ao uso da câmera fotográfica e à fotografia. Pelo visto, competência e incompetência andam juntas. Ao desestimular o próprio cerne da política de revitalização, com as restrições à fotografia, a Prefeitura de Santo André mata o principal aliado dessa política. Paranapiacaba só é interessante porque é um lugar fotografável. É seu único atrativo. Fotografia e turismo não podem ser separados em lugar nenhum do mundo. Seria como cobrar entrada para visitar Ouro Preto, Mariana, São Luís do Maranhão, Olinda. Só falta a Prefeitura de Santo André exigir passaporte para visitar a vila histórica. A iniciativa esdrúxula está baseada numa contradição específica de Paranapiacaba e na má interpretação do direito de propriedade que tem a Prefeitura sobre ruas e imóveis do conjunto suburbano. A vila é também distrito e, portanto, uma unidade administrativa e demográfica do município, dotada de seu juiz de paz, criada por lei estadual. Mas é um bem imóvel da Prefeitura, que pode nela colocar porteira e cadeado. Esse cadeado só pode ser aberto com inteligência. Com burocracia e mentalidade burocrática nunca o será.
         Algo, aliás, parecido com o que ocorreu no início do século 19, na ampla região da Borda do Campo, quando os monges de São Bento se opuseram a que o bispo de São Paulo criasse paróquia em sua Fazenda de São Bernardo. Argumentou o abade que era impróprio erigir paróquia em propriedade particular. O assunto foi parar nas mãos de Dom João, Príncipe Regente, futuro Dom João VI. Li o extenso parecer de Sua Alteza Real, que deu nó em pingo d’gua para criar a paróquia de São Bernardo, em 1812, fazendo-o, porém, em terreno vizinho, fora do território da fazenda beneditina. Nessas coisas, o ABC já é complicado faz tempo, ao que parece.
         Como Dom João já não está disponível (voltou para Portugal...), sobra a alternativa bem mais interessante de Buenos Aires, pois nem passaporte é necessário ou qualquer pedido prévio ao governo local para fotografar. Basta a carteira de identidade. E ainda sobram uns trocados para um chocolate quente com churro numa das acolhedoras casas desse ramo. Coisa própria para o frio e a neblina de Paranapiacaba, que eu ia sugerir e não sugiro mais.
notas
NE

Uma versão preliminar deste texto foi divulgada nas redes sociais.

1

MARTINS, José de Souza. José de Souza Martins. Coleção "Artistas da USP", Volume 17. São Paulo, Edusp, 2008. As fotos que ilustram o artigo pertencem ao livro citado.

sobre o autor
José de Souza Martins é sociólogo, Professor Titular da Faculdade de Filosofia da USP e dela Professor Emérito. Dentre outros livros, autor de Sociologia da Fotografia e da Imagem, Contexto, 2008.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

OS GREGOS ERAM DEMAIS MESMO!

ANTIKYTHERA MECHANISM: MÁQUINA QUE CALCULAVA, COM PRECISÃO, ECLIPSES SOLARES HÁ MAIS DE DOIS MIL ANOS.


No primeiro vídeo, uma "brincadeira com legos, só para colocar no lugar quem se acha bom montando aviõezinhos. No segundo e no terceiro, o documentário da Nature sobre essa gigantesca descoberta.

 

sábado, 15 de outubro de 2011

DESCOBERTA DE HOT SPOTS DE MATERIAL RADIOATIVO ESPALHA MEDO MUITO ALÉM DE FUKUSHIMA


Fukushima 'hot spots' raise radiation fears
But experts see little threat from patches of heightened radioactivity.



Tokyo hotspot

A hot spot of radiation detected in Tokyo was traced to abandoned bottles of radium-226.
Sankei via Getty Images
The discovery of 'hot spots' of radioactive material is spreading fear far beyond the damaged Japanese nuclear power plant at Fukushima. But experts say that there is no threat from the small spots of increased radioactivity now being discovered in large-scale surveys.
On 12 October, officials reported finding 195 becquerels of strontium-90 on a rooftop in Yokohama, some 250 kilometres south from the Fukushima Daiichi plant. A day later, a citizen's group in Funabashi, Chiba Prefecture, about the same distance away, made radiation readings of 5.82 microsieverts per hour (μSv h–1) at a children's theme park. The same day, an inspection of Tokyo's Setagaya district turned up a narrow strip of pavement that seemed contaminated, at 3.35 μSv h–1. Officials later traced the Tokyo contamination to an abandoned house containing bottles of radium-226, a radioactive element once used in luminous paint.

Counting the risk

Since the Fukushima accident, the Japanese government's official safety limit for radiation exposure is 20 mSv per year, which corresponds roughly to a rate of 2.28 μSv h–1. Yet the newly discovered hot spots pose no threat to human health, says Geraldine Thomas, a radiation-health expert at Imperial College in London. Total radiation dose is measured by the strength of the radioactivity in a given area and the amount of time a person spends there. The small sizes of the hot spots make it all but inconceivable that anyone would receive 20 mSv, she says. Strontium-90 can cause bone cancer if ingested, but a small patch on a roof won't cause that problem, Thomas says. "These are minuscule amounts of radiation, but the population out there is terribly nervous."
Risk is about more than radiation readings, adds Christopher Clement, the scientific secretary of the International Commission on Radiation Protection in Ottawa, Canada, an independent international organization that provides guidance on safe levels of radiation. Its 'recommended' residual dose from a nuclear accident is between 20 and 100 mSv per year for the general population. The Japanese government has chosen the lower number as its official limit, Clement says, but "it's not a magical number by any means". Clement says that most scientists believe that receiving an additional 100 mSv of radiation over a prolonged period can raise the chance of dying of cancer by 0.5% (in the general population the chance of cancer being the cause of death is about 25%).

Under the limit


To reach that 100-mSv dose would require someone to be continuously exposed to the Japanese government's 20-mSv limit for 24 hours a day, seven days a week over a five-year period. A small amount of radioactive material on a rooftop or in a gutter poses little risk. "People don't sleep in that one spot in the gutter," he says.
Both Clement and Thomas say that more hot spots are likely to be discovered as citizens' groups, local authorities and government inspectors continue their surveys. And Clement says that everyone should be prepared for more false alarms like the one in Tokyo: "No matter where you go in the world, if you take a radiation instrument with you and look around, you'll eventually stumble across something that's above what the background for that area normally is," he says.

Published online 14 October 2011 | Nature | doi:10.1038/news.2011.593

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PASSEIO GUIADO PELO CENTRO DE SÃO PAULO

Vídeo leve com algumas curiosidades sobre a cidade de São Paulo e sua relação com o café. Não se esqueça de buscar as referências das informações apresentadas antes de usá-las em seus trabalhos!